Após o golpe de 1964, a política externa brasileira sofreu uma guinada radical. O governo de João Goulart (Jango) mantinha a chamada Política Externa Independente (PEI), que buscava relações com todos os blocos, inclusive o comunista.
Ao assumir o poder, Castelo Branco alinhou o Brasil incondicionalmente aos Estados Unidos no contexto da Guerra Fria. A justificativa era a defesa do “mundo ocidental e cristão” contra o comunismo internacional.
O governo Castelo Branco acreditava que a fidelidade ideológica seria recompensada com um “Plano Marshall” para o Brasil. O governo Castelo Branco criticava a PEI, chamando-a de “utópica” e “perigosa”. Em seu lugar, introduziu o conceito de Interdependência. A premissa era de que nenhum país subdesenvolvido conseguiria ser totalmente independente na era nuclear; logo, a melhor estratégia era aceitar a interdependência e associar-se formalmente à superpotência que liderava o lado ocidental (os EUA).
É nesse cenário que o termo “entreguismo” ganha força entre os críticos da oposição, que acusavam o regime de submeter a soberania e a economia nacional aos interesses norte-americanos. Na historiografia política brasileira, o termo é usado para descrever a facilitação da entrada de capital estrangeiro, a privatização de recursos ou a submissão das forças de segurança e diplomacia nacionais a diretrizes de Washington, renunciando uma postura altiva e multilateral.
Políticos de espectros conservadores ou de direita no Brasil historicamente buscaram a proximidade com líderes republicanos ou conservadores nos EUA (como o alinhamento com a era Trump) para ganhar musculatura política internamente e projetar uma imagem de força e aliança internacional.
Juracy Magalhães, ex-governador da Bahia foi um importante político nomeado por Castelo Branco como Embaixador do Brasil nos Estados Unidos em 1964. Logo após assumir a embaixada em Washington proferiu uma frase que marcou o espírito entreguista da época: “O que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil.”
Essa afirmação sintetizava a política de alinhamento automático ou barganha ideológica. A ideia do governo brasileiro era a de que, ao se mostrar um aliado ultra fiel e estratégico na América Latina, receberia em troca ajuda financeira, investimentos privados e apoio militar dos EUA, programas como a Aliança para o Progresso, um programa criado pelo governo Kennedy para financiar o desenvolvimento da América Latina e, assim, esvaziar o apelo de revoluções de esquerda (como a que ocorreu em Cuba). O Brasil passou a ser um dos maiores beneficiários desses fundos.
Mais tarde, em 1966, Juracy Magalhães assumiria o cargo de Ministro das Relações Exteriores (Itamaraty).
O passado e o presente, a premissa de que a maior potência do Ocidente possui as respostas ou a autoridade necessária para chancelar ou resolver problemas internos do país, seja o comunismo na década de 1960 ou o narcotráfico e segurança pública na atualidade.
Fatos históricos concretos desse alinhamento, dois episódios marcantes ocorridos logo após o golpe de 1964, uma das primeiras medidas da junta militar, ainda antes da posse formal de Castelo Branco, foi romper as relações diplomáticas com Cuba, atendendo a uma demanda central de Washington para isolar o regime de Fidel Castro no continente.
Em 1965, quando estourou a guerra civil na República Dominicana, os EUA invadiram o país temendo o surgimento de uma “nova Cuba”. Para dar legitimidade internacional à invasão, a Organização dos Estados Americanos (OEA) criou a Força Interamericana de Paz (FIP). O Brasil de Castelo Branco não só apoiou a iniciativa como enviou tropas militares e assumiu o comando da força de ocupação liderada pelo general brasileiro Hugo Panasco Alvim.
A partir de 1967, com a posse do presidente Arthur da Costa e Silva e mais tarde no governo Ernesto Geisel nos anos 1970, a política externa brasileira mudou para o chamado “Pragmatismo Responsável”. Os próprios militares perceberam que o apoio total aos EUA não trouxe o retorno econômico esperado e que os interesses comerciais do Brasil (como vender produtos e comprar petróleo) exigiam reatar com países africanos, árabes e até do bloco socialista.
Essa virada histórica serve para mostrar a postura de “entreguismo” ou alinhamento cego inicial que acabou sendo contestada, com o tempo, por considerações pragmáticas pelo Estado brasileiro e pelo mercado.




