A trajetória das relações bilaterais entre o Brasil e os Estados Unidos é frequentemente marcada por uma tensão fundamental entre a busca pela soberania nacional e a imposição de agendas de subordinação econômica e cultural.
Longe de ser uma parceria linear de cooperação mútua, esse histórico revela um movimento pendular: de um lado, políticas externas que submeteram o país ao papel de fornecedor de insumos baratos e receptor de diretrizes estrangeiras; de outro, momentos de altivez diplomática que priorizaram o desenvolvimento interno e a autonomia geopolítica.
Compreender essa dinâmica, desde as estratégias de soft power do meado do século XX até a cartilha neoliberal do final do milênio, é indispensável para analisar o cenário contemporâneo, no qual a soberania duramente conquistada pelo Brasil volta a enfrentar tentativas internas e externas de retrocesso e interferência.
Durante a Segunda Guerra Mundial, os EUA precisavam garantir o apoio da América Latina. Criou-se o Office of the Coordinator of Inter-American Affairs (OCIAA), liderado por Nelson Rockefeller.
Foi nesse período que a cultura brasileira foi “pasteurizada” para o consumo americano. Carmen Miranda, com uma imagem estereotipada do país e o Zé Carioca, criado pelos estúdios Disney foram ferramentas de soft power para construir uma falsa simetria entre as nações, enquanto o Brasil se alinhava estrategicamente aos interesses de Washington no pós-guerra, moldando uma dependência que sufocava uma identidade nacional autêntica e independente.
Na década de 1990, pós a crise da dívida externa da década anterior, os EUA e os organismos financeiros internacionais (FMI e Banco Mundial) impuseram uma agenda econômica para a América Latina.
Este é o período do Consenso de Washington, marcado pela cartilha do neoliberalismo: privatizações em massa de setores estratégicos, a imposição da ideia de Estado Mínimo (redução de investimentos públicos em saúde, educação e infraestrutura) e a desregulamentação financeira.
O resultado, como vimos, foi a orientação do crescimento do país pelo mercado financeiro global, gerando uma severa concentração de renda e mantendo o Brasil no papel histórico de exportador de commodities baratas e importador de produtos industriais e tecnológicos americanos.
Romper com essa lógica de produzir barato para consumir produtos manufaturados americanos exigiu, no século XXI, uma virada de chave institucional.
Ao diversificar seus parceiros comerciais, priorizar alianças no Sul Global e quitar suas dívidas com organismos financeiros internacionais, o Brasil ensaiou uma libertação desse jugo, demonstrando que o desenvolvimento nacional depende da preservação estrita de sua autodeterminação econômica e política.
A virada de chave na política externa brasileira, focando na integração sul-americana, na diversificação de parceiros globais, o estreitamento de laços com a China, criação dos BRICS e na quitação da dívida com o FMI.
Esse momento representa o “desvencilhar” do jugo americano.
O Brasil passa a adotar uma postura de altivez diplomática, priorizando o desenvolvimento interno, o fortalecimento do mercado consumidor doméstico e a industrialização, quebrando a lógica de “produzir barato e muito para adquirir produtos americanos”.
A soberania nacional deixa de ser uma retórica e passa a ser exercida na prática geopolítica.
O episódio recente, relacionado a audiências ou articulações de parlamentares brasileiros no Congresso americano buscando sanções ou pressões políticas contra o Brasil, agindo sem representação oficial do Estado brasileiro, representa uma tentativa de recolonização política.
Ao instrumentalizar o poder de uma potência estrangeira para intervir em questões internas e jurídicas do Brasil, esse grupo político busca reatar os laços de subordinação do passado.
É a tentativa de fazer o país retroceder ao status de quintal ideológico e econômico dos EUA, ameaçando as instituições e a soberania duramente conquistadas
Em suma, a história demonstra que a soberania brasileira não é um dado permanente, mas uma construção constante sob disputa.
A recente articulação de atores políticos nacionais junto a instâncias do poder americano, contornando a representação oficial do Estado para inflamar pressões externas contra as instituições do país, sinaliza um perigoso eco do passado.
Trata-se da tentativa de reatar laços de subserviência e de instrumentalizar uma potência estrangeira como árbitra dos rumos nacionais.
Para que o Brasil não retroceda ao status de mero satélite ideológico e econômico, o debate público precisa rejeitar o retorno a essa política de dependência, reafirmando que o destino, as leis e a governança do país devem ser decididas soberanamente pelo seu próprio povo.
Professor Márcio Meirelles




